MENINO-CASULO
Faz de conta que sou gente grande,
Faz de conta que tenho carteira assinada,
Faz de conta que ganho um bom salário,
Faz de conta que conheço as partículas que compõem o meu nome.
Que pena! pura ilusão.
Sou apenas um menino de barriga "rachada",pés encaliçados,mãos feridas,rosto desfalecido.
Faço parte de um fenômeno em expansão.
Sou bóia-fria,tenho sonhos excessivos,feridos,impossíveis.
É pura coincidência ou força do destino?
Amanhã serei o quê?
Nobre homem-velho de músculos gigantes,arriscado,depravado pela vida?
Ou um homem de pele dourada passeando pelos os centros urbanos de óculos escuros?
Não sei.
Não sei nem calcular o peso de um lápis!
Sei o peso de uma ferramenta laminada.
Mas,não sei a fórmula de um quadro vazio.
Não sei o que tem dentro de uma caixinha de surpresa.
Nunca dei lição,a vida é uma lição,minha vida é um casulo fechado.
Eu posso ensinar sem criatividade.
Sou diferente,sou igual.
Só tenho deveres.
Não faço dever de casa,onde a casa é o próprio dever.
Não sou nada,enquanto o nada é um nada.
Sou um pássaro ferido,no corpo,na alma,no coração,olhos ávidos de esperança desesperançosa.
Sou um quadro confuso para os poetas.
Sou um barco esquecido na praia.
Sou um menino como qualquer,porém,meio que diferente,inocente.
Esqueço que sou assim.
Caminho lado a lado com o horizonte virgem,desconhecido.
Caminho sem rumo,como quem espanta os abutres do aconchego.
No meu olhar tudo parece mesquinho,obsceno.
Percebo a noite negra lá fora,o vento soprando a chuva caindo.
Varejo a escuridão,as luzes sinais de seres vivos que me falam.
Sinto naquele momento um único hálito,um único desejo,um único corpo vomitado da solidão.
Queria que me mostrassem a razão.
Queria que me contassem estórias.
Queria me tranquilizar com as cifras,os letreiros que bombardeiam minha tranquilidade inocente.
Queria moldar meus lábios com palavras belas que insultasse meu próprio pensamento e atingir a liberdade saindo de mim.
Silva,Robson.