Texto de Cláudio de Moura Castro

A educação
invisível

"Quem
sabe não estamos
subestimando
o real nível de educação
de nosso povo?"



Pela teoria
do capital humano, a educação é o mais importante
fator para explicar por que alguns países crescem e outros não.
E, em sociedades modernas, o conhecimento tem papel cada vez mais importante.

Ilustração Ale Setti


Mas, no Brasil, dá um nó. Temos estatísticas educativas
parecidas com as do Paraguai e as da Bolívia e piores que as do
Peru, países bem mais pobres que o nosso. Como terá sido
possível distanciar-se deles com o pífio desempenho mostrado
por nossas estatísticas de educação? Será
que a teoria do capital humano está errada? Ou são os números?

O Brasil
gasta cerca de 5% do PIB com educação (pela definição
da OECD), um pouquinho acima da média mundial. Mas falta uma peça
no quebra-cabeça. Segundo o banco Credit Suisse, na verdade, quando
incluímos os gastos privados, o total chega a 9% do PIB (90 bilhões
de reais).

Mas cadê
os outros 4%? Fora da escola acadêmica, não existem estatísticas
confiáveis, é um mosaico de informações desencontradas
sobre o que acontece nas empresas e por todos os lados. E quem sabe o
gasto não será ainda mais que 9%?

As empresas
treinam, mas ninguém sabe quantos. Nem elas próprias contabilizam
ou fazem estatísticas. As universidades corporativas se multiplicam
e há milhares de centros de treinamento. As consultoras vendem
treinamento às empresas. As universidades públicas e privadas,
também. Os vendedores de equipamento capacitam os funcionários
de seus clientes. Juntando tudo, é uma conta de muitos bilhões,
que permite treinar milhões de alunos.

Fala-se
em 300.000 estudantes de MBA, curso que legalmente
não existe. Fazendo especialização em variados assuntos,
deve haver ainda mais. Grande parte das universidades possui mais alunos
em extensão que em cursos regulares. Nos cursinhos pré-vestibulares,
é provável que haja pelo menos 1 milhão.


o ensino a distância, indo das velhas escolas por correspondência,
com centenas de milhares, ao e-learning, que se multiplica como o mosquito
da dengue, facilmente matriculando 1 milhão de alunos. Existem
mais ou menos 400.000 nos telecursos de empresas
e ONGs. Temos dois canais de televisão exclusivamente dedicados
à educação. Uma pesquisa de audiência mostrou
que entre 6 e 7 milhões de pessoas haviam assistido ao telecurso
na semana anterior sem intenção alguma de fazer o exame
supletivo. Duzentas mil se inscreveram na primeira apresentação
da novela educativa Aprender a Empreender, do Sebrae. Os jornaleiros
estão cheios de revistas, livros, apostilas e CDs que ensinam a
fazer coisas ou a preparar-se para concursos.

Existem
hoje 30 milhões de voluntários no Brasil. Mais da metade
pode estar em programas de educação. A filantropia brasileira
já gasta mais de 5 bilhões. Se cautelosamente supusermos
que 50% desse valor é gasto em programas de educação,
é mais um naco grande de recursos não contemplados pelo
Credit Suisse.

Os governos
federal, estaduais e municipais (além das secretarias de Educação)
contratam cursos de quase tudo. Os professores fazem milhares deles por
ano. O Planfor – financiado pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador –
capacita anualmente mais de 300.000 pessoas.


o setor informal de educação e treinamento. Um passeio pelo
centro das grandes cidades, olhando para os sobrados, vai mostrar um número
extraordinário de cursos que ensinam computação,
inglês (além dos 800.000 matriculados
em programas de grifes conhecidas), secretariado, preparação
para concursos e outros assuntos. Faz algum tempo, a Unesco contou de
2.000 a 3.000 em
cada capital latino-americana. Perante a lei, isso não existe nem
entra nas estatísticas.

Pelo censo,
há 60 milhões de brasileiros estudando no sistema formal.
Mas o que foi citado acima soma muitos milhões a esse número.
A formação continuada, pregada pela Unesco, realmente existe,
só que meio clandestina. Trata-se de algo invisível e não
contabilizado, em parte, remendando um ensino acadêmico ainda muito
deficiente. Não é o ideal. Seria melhor não precisar
dessa cacofonia de esforços. Mas essa miríade de iniciativas
é uma forma de compensar as fraquezas de nossa escola. Quem sabe
não estamos subestimando o real nível de educação
de nosso povo?

FONTE: http://veja.abril.com.br/educacao/pais.shtml

Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)