quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Vida Ensina Pelas Entrelinhas – Andrea Pavlovitsch

"Jogue suas mãos para o céu, e aproveite se acaso tiver, alguém que
você gostaria que estivesse sempre com você, na rua, na chuva, na
fazenda ou numa casinha de sapé"



Há alguns dias recebi uma daquelas notícias avassaladoras, que fazem
você não pensar em mais nada: uma grande amiga estava no hospital,
passando por procedimentos cirúrgicos graves. Ela não corria perigo de
morte, mas como convencer a minha mente turva e dramática de que isso
era uma possibilidade remota? Depois de assistir tantos programas de TV,
noticiários e tudo mais, sempre pensamos que os dramas da nossa vida
são realmente maiores do que são. E não vamos exagerar, não é?




Mas o fato é que tudo isso me fez parar, novamente, e pensar (como se eu
não fizesse isso o suficiente). E mesmo em meio a um turbilhão de
coisas de trabalho e resoluções de ano novo uma pergunta me colocou uma
pulga gorda atrás da orelha.



Quando vemos isso nos dá vontade de aproveitar a vida, não é? Vêem todos
aqueles filminhos de filtro solar, de Shakespeare, Titãs, na nossa
cabeça e pensamos "poxa, a vida termina rápido, é melhor aproveitá-la".
Sim, mas a questão não é esta. A questão é: o que diabos é aproveitar a
vida?




Será que aproveitar a vida é vender tudo, comprar um barco e atravessar o
oceano com um estoque de comida enlatada e um rádio que não pega metade
do caminho? Será que é vender água de coco em Porto Seguro ao som da
última versão de Macarena em português? Será que aproveitar a vida é
largar o seu namorado de três anos mornos e começar a dar uma de
Samantha em "Sex and the City" pegando só o que dá? Afinal de contas,
que é este tal de aproveitar a vida?




Eu acho que eu aproveito a vida. Meu trabalho, eu nem chamo de trabalho,
porque eu amo demais e me levanto cada dia mais cedo para executá-lo.
Eu sou curiosa ao ponto da minha mãe sempre dizer que não posso ver um
saco fechado chegando em casa que eu abro e, assim, eu conheço um monte
de coisas. Eu me considero uma pessoa amiga, pelo menos de mim mesma. Eu
cometo algumas gafes, faço alguns disparates de vez em quando, mas a
idéia de pular de pára-quedas me causa náuseas só de pensar. E aí? Será
que eu deveria querer pular de pára-quedas ou voar de balão na Capadócia
para estar de fato aproveitando a minha vida?




Depois de muito analisar e de deixar a minha intuição falar um pouco
mais do que isso eu cheguei a uma conclusão. Aproveitar a vida é ser
você mesmo! Se o que te deixa feliz é limpar a casa todinha e fazer um
belo jantar para o seu marido, mesmo sem ter nunca saído do seu bairro,
que ótimo, você está aproveitando a sua vida. Se o mais importante é se
aventurar em uma terra desconhecida e você o faz mesmo que tudo seja
planejado metodicamente, que bom, você também está aproveitando a sua.




O que não é aproveitar a vida, para mim é, mesmo tendo tudo isso, não
ter paz no espírito ou no coração. Não conhecer a si mesmo a ponto de
não ter a menor idéia do que quer fazer com a sua vida. Não olhar para
dentro e continuar procurando do lado de fora de você a resposta para
todos os seus problemas, seja num amor, numa viagem, indo pro Oriente
Médio ou sendo rica e famosa. Não aproveita a vida quem não olha o por
do sol, mesmo que seja da laje de um barraco e se sente emocionado, lá
no fundinho, com o espetáculo que é a natureza. Não aproveita a vida
quem está com pressa de ser e de ter. Quem tem pressa de ser mais feliz,
não está aproveitando a vida, mas a encurtando. Quem está preso na
própria ansiedade não vive em mundo algum, está só flutuando como um
dente-de-leão procurando um solo seguro para se firmar. Quem acha que a
felicidade está "lá", seja lá onde este "lá" for.



É claro que eu quero realizações. Mas eu só posso me realizar quando eu
viver a experiência por si só. Quando eu tiver um filho, não porque eu
quero que alguém cuide de mim na velhice ou porque eu quero ter para
quem deixar os meus anéis, mas porque eu quero saber como é a
experiência de cuidar de um corpo pequeno que recebeu uma alma grandiosa
(sim, porque todas as almas são grandiosas). Eu aproveito a vida no
café que eu tomo com a minha prima no shopping, mesmo que eu tome aquele
café pela milésima vez. Aproveito a vida comendo o meu pastel de
camarão na feira, comprando meus vasinhos de plantas e vendo uma semente
virar um morango. Eu aproveito a vida quando abro meu armário pela
manhã e quero, tenho o tesão de escolher uma roupa linda porque é isso
que eu mereço. Porque, por mais piegas e lugar-comum que isso possa
parecer, a vida é só o que temo no hoje. O amanhã não chegou. O ontem já
passou. E o desespero chega justamente quando queremos algo que
tínhamos ontem e não temos, ou que queremos saber se teremos amanhã. Até
porque, a hora da morte é sagrada e também precisa ser aproveitada como
um novo nascimento. Um nascimento de outro nível, em outras esferas que
deverão também ser muito bem aproveitadas.



Aproveite que está lendo este texto, e se perceba. Perceba como está
sentado, perceba as partes do seu corpo, o contato do seu corpo com a
cadeira. Perceba a maciez das coisas ao seu redor, as cores, os cheiros.
Perceba qual é o seu sentido mais aguçado. Isso é viver e aproveitar.
No aqui e no agora, da maneira como as coisas são ou estão. Ame
intensamente como não se houvesse amanhã. Porque, quando chegar o
amanhã, ele será o seu hoje mesmo. Largue a carga que você carrega de
ter uma lista enorme de obrigações. Sinta o prazer de ser.




Aproveitar a vida é ter prazer. Por que a dor virá, inevitavelmente.




Pense nisso!




Andrea Pavlovitsch



Psicoterapeuta Holística

FONTE: http://www.fadadasrosas.com.br/2010/09/vida-ensina-pelas-entrelinhas-andrea.html –  http://www.sabedoriadosmestres.com/
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